21.11.07

O que você vai ser, o que você quer ser

Começa com a família, bem antes do vestibular. Esse é apenas um divisor de águas, um marco; o drama mesmo vem com a maldita pergunta "o que você vai ser quando crescer?", aceitando a variante "o que você quer ser quando crescer?". Eu lá sei o que cargas d'água o futuro me reserva? Ainda emulo um Álvaro de Campos para a segunda: o que eu quero ser? Mas quero ser tantas coisas!

A resposta costuma vir fácil, quando se é criança. Eu costumava variar entre escritora e desenhista-pintora, o que quer que fosse isso. Cheguei a copiar a carteira de trabalho da Vó Maria, empregada lá de casa, com direito a foto 3x4 desenhada e minha assinatura. Um dos meus primos dizia que ia ser motorista de caminhão, depois mudou pra piloto de avião.

Mas aí você cresce e se dá conta que ser desenhista-pintora não vai dar dinheiro, que talvez você não tenha talento o bastante para isso, que é difícil de entrar nesse mercado, etc. Daí você começa a entrar em contato com várias outras possibilidades de carreira - um leque ao mesmo tempo ilimitado e apertadíssimo - e aquele "o que você quer ser quando crescer" vira de repente um "mas então, vai fazer vestibular pra quê?".

(Sim, porque não existe a menor chance de felicidade sem que se passe cinco horas preso numa sala cheia de adolescente e pós-adolescentes, com o contato visual subliminarmente limitado, e praticamente proibido de dirigir uma palavra a qualquer um dos desgraçados que, como você, encaram o punhado de perguntas irrelevantes que supostamente determinarão o rumo de suas vidas.)

Daí, digamos que você faça sua escolha sem intervenção da família ou dos amigos (como se isso fosse possível). Digamos ainda que você escolha um curso no vestibular que realmente pareça algo legal de se fazer - não só por causa da grana, ou porque é badalado, ou porque a relação candidato/vaga é ótima. Vamos mais além: digamos que, feita a escolha e vencida a etapa das cinco horas na salinha, você seja aprovado.

Daí você começa suas aulas, conhece pessoas. Volta e meia você descobre coisas chatas sobre sua recém-iniciada carreira, mas tudo bem: como diz mamãe, para todo bônus existe um ônus, tudo que é bom tem seu lado ruim, equilíbrio da natureza, Yin e Yang, e talz. Daí você começa a trabalhar - digamos que num estágio - e no começo até que é bem legal, você fica tranqüilo e todo mundo em casa fica também.

Daí você termina a faculdade e começa a sentir que não era exatamente aquilo que você queria fazer quando crescesse.

Pra todo bônus existe um ônus, só que a vida fica bastante complicada quando os ônus deixam os bônus comendo poeira. De repente, a profissão que você escolheu resolve se mostrar chata; o que te levou a seguir aquela carreira ainda está lá, em algum canto, mas o resto das suas oito horas no escritório criam uma nuvem de poeira que sufoca o prazer que você um dia teve. Daí você se questiona se não fez uma escolha errada, lá no vestibular, se afinal não era melhor ter feito uma faculdade que fosse te dar uma porrada de dinheiro (já que é pra ser ruim, que tenha uma compensação).

É engraçado como, nessas horas, a gente sempre se dá conta que queria mesmo é ser escritora ou motorista de caminhão. Daí a gente começa a criar aquela carreira de Platão (que a gente não seguiu) enquanto reclama cada vez mais da carreira pé-no-chão (que a gente mesmo escolheu, mas quase se arrepende). Mais engraçado ainda é quando se coloca a carreira de Platão numa torre de marfim bem alta - porque no fundo a gente sabe que, se largar tudo em prol do sonho de criança, vai descobrir que ele também pode ser chato e cheio de burocracias. E a gente não quer isso; quer os bônus sem os ônus.

Mas daí o ano acaba e a gente promete pra si mesmo: ano que vem vai ser diferente. Ainda é novembro, mas minhas resoluções de ano-novo envolvem sair de onde eu estou hoje e começar a galgar essa torre de marfim aí, sem deixar de correr os olhos pelo que acontece ao redor do meu castelinho. Nada indica que o caminho vai ser fácil, nada indica que fazer isso vai resolver as minhas dúvidas existenciais (maldita contemporaneidade), mas pelo menos eu sei que tentar vai me dar aquele friozinho na barriga, e eu estou mesmo precisando sair da inércia.

(Em tempo: o primo que queria ser motorista de caminhão fez faculdade de Educação Física. Largou e virou comissário de bordo de uma grande companhia aérea, depois quase trocou de carreira e virou cantor de banda de forró.)

Um comentário:

Miguel Fagá disse...

Nunca é tarde pra recomeçar...